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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

A Forma da Água-


                                                                               


Sinopse: Elisa é uma zeladora muda que trabalha em um laboratório onde um homem anfíbio está sendo mantido em cativeiro. Ela se apaixona pela criatura e elabora um plano para ajudá-lo a escapar com a ajuda de seu vizinho.

A Forma Da Água (Shape of Water) de Guillermo del Toro, filme recordista de indicações e prêmios em festivais: Globo de Ouro, Leão de Ouro, Critics Choice Award, Screen Actors Guild, Bafta, Directors Guild of America Award, Satellite Award, ADG Award e Sindicato de Produtores dos EUA, é um dos mais cotados ao Oscar 2018 com 13 indicações, incluindo Melhor Filme e diretor. 
No longa, acompanhamos a história de Eliza (Sally Hawkins), uma zeladora muda que trabalha em uma organização governamental nos EUA durante o período da guerra fria, junto com sua amiga Zelda (Octavia Spencer) e tem sua vida transformada quando descobre uma estranha criatura aquática (Doug Jones) no laboratório secreto da organização.
Strickland, um oficial do governo americano enviado à Amazônia para capturar um ser mítico cujos poderes aumentariam a potência militar dos EUA, volta trazendo consigo o deus Brânquia, o deus de guelras, um homem anfíbio.
Strickland e Eliza travam uma batalha sistemática, enquanto para ele o homem anfíbio é um “objeto” a ser dissecado e exterminado, para ela é um amigo em sua vida silenciosa e cercada de invisibilidade, alguém cuja existência deve ser preservada.
Mistura, na medida exata, de conto de fadas moderno, terror e suspense traz o estilo inconfundível de Guillermo del Toro em uma história atemporal sobre um homem (e seus traumas), uma mulher (e sua solidão), e o deus que mudou para sempre suas vidas.
Em uma das cenas do filme, Eliza observa gotas de água que escorrem pela janela do ônibus, o foco passa para duas gotas que dançam no vidro, bailando uma ao redor da outra até que, por fim, se unem. Sem uma única palavra, Del Toro apresenta a metáfora para a vida.
São as sutilezas que dão à história camadas de interpretação, e o diretor mexicano, famoso por suas abordagens originais nos gêneros fantasia e terror, usa metáforas e analogias filosóficas e literárias. Por detrás desse romance inusitado, Del Toro deixa fluir sua visão de mundo ao propor debates profundos quanto à própria existência humana e à espiritualidade, como a dicotomia humano/divino ao fazer refletir sobre o ser que em seu vilarejo era tido como um deus e que agora está condenado às experiências, ou sobre bem versus mal ao propor a discussão sobre a desumanidade do homem e quem é realmente o monstro.
As histórias de amor entre monstros e mocinhas não são novidade, o conceito é quase um subgênero do romance e fantasia e tem como um dos seus maiores representantes A Bela e a Fera.
O que difere A Forma da Água de outras obras é a abordagem dada pelo diretor que opta por um estilo lúdico que remete a um conto de fadas sombrio cuja movimentação de câmera apresenta uma suavidade que remete à musicais, gênero que tem papel essencial no desenvolvimento da protagonista, enquanto a fotografia é fria e obscura remetendo aos clássicos de monstros ou ao expressionismo alemão, ambos fontes de influência para a obra do diretor.
A música é composta com a pegada minimalista próxima do cinema francês e tem Carmem Miranda no seu portfólio.
Destaque para a importância da água na história, e o papel exercido pelo anfíbio. O monstro não é uma figura aterrorizante também não é um adorável E.T de Spielberg, mas um espelho para os personagens humanos. Cada personagem que tem contato com a criatura, vê nela um espelho de sua própria alma, assim, Giles (Richard Jenkins), um homossexual reprimido, vê no monstro seu dilema de não ser aceito na sociedade, enquanto Strickland (Michael Shannon), um sadomasoquista insano, violento e sociopata percebe na criatura a sua própria monstruosidade como ser humano.
Cada personagem compõe uma forma diferente para a mesma figura, como se ele fosse a água que se espalha ao redor de cada coisa, transformando-se naquilo que percorre.
Um conto de fadas surreal que mostra que devemos amar a diferença do outro.
Simples assim. Simplesmente perfeito em sua imperfeição e em uma singularidade absurdamente poética.



Abraços Literários e até a próxima.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Viva: A Vida é uma Festa-


                                                                                 

Indicado ao Oscar 2018 na categoria animação, “Viva: A Vida é uma Festa” conta a história de Miguel Rivera, um garoto de 12 anos que sonha ser um músico famoso como seu ídolo, Ernesto de La Cruz, um lendário cancioneiro mexicano que morreu décadas atrás de maneira trágica. Sua devoção pela música faz com que se sinta dividido entre a paixão e a família que deslegitima a arte musical, desencorajando o garoto.
Ele então parte em uma jornada durante o feriado do dia de los muertos, encontra o túmulo de De La Cruz, onde está depositado seu misterioso violão, alcança o instrumento, toca e como que por encanto cai na dimensão dos mortos e volta ao passado para descobrir o que aconteceu com seu bisavô.
O protagonista terá que lidar com seus parentes mortos, que assim como os vivos, desaprovam sua paixão pela música.
Nessa viagem contará com a ajuda do cachorro Dante e de Hector, um morto que não consegue visitar o mundo dos vivos uma última vez.
A relação entre Miguel e Hector e do garoto com a família são envolventes e as motivações dos personagens, seja mal resolvida no mundo dos vivos ou bem argumentada no universo dos mortos são coerentes.
Lo Dia De Los Muertos é uma data importante no México para refletir sobre esse evento inevitável da vida que é a morte, para recordar quem partiu e celebrar sua presença na vida daqueles que os amam.
O longa é uma homenagem geográfica e contextualizada, voltada à arte de um povo e à família. Mostrá-las interligadas estabelece uma conexão que valida a história. Miguel vai aprender que perseguir um sonho tem um preço, a importância da família e que morrer não é ruim, é apenas mais uma etapa da vida.
É o primeiro filme com elenco totalmente latino a atingir o orçamento de US$ 200 milhões e o original conta com vozes de Gael García Bernal como Hector e Anthony Gonzalez, que tem chamado a atenção indicando um talento em potencial, como a Miguel.
É um filme divertido, mas que brinca com a emoção do espectador. O roteiro segue uma montanha-russa de reviravoltas que mesmo previsíveis causam impacto e a sequência final do filme é um soco no estômago, faz qualquer um se acabar em lágrimas.
Ainda assim, o espectador sai do cinema com um sorriso no rosto.
Empregando efeitos de luz e sombra de modo a criar o Mundo dos Mortos de forma viva (pun not intended) tecnicamente a animação é uma lindeza!
A vila onde Miguel mora é uma comunidade rural e o filme é uma homenagem aos antigos musicais conferindo um viés nostálgico.
Sem falar no bacanérrimo aspecto visual das calaveras em si: os mortos possuem grande leque de animações graças ao fato de serem “desmontáveis” e flexíveis gerando piadinhas visuais bem executadas que só são possíveis nesse contexto.
A música é outro ponto forte: Michael Giacchino (Ratatouille, Up!, Star Trek: Sem Fronteiras) compôs uma excelente carta de temas inspirados no estilo Mariachi e as canções são bacanérrimas.
Até é uma repaginação dos valores e clichês da Disney, mas em Viva — A Vida é Uma Festa eles foram usados de uma maneira singular contando uma história de amor, amizade e perseverança, regada pela riquíssima cultura mexicana e uma excelente trilha sonora, com doses exatas de humor e emoção onde o tema central é a família, seja de vivos ou mortos.

Abraços Literários e até a próxima.


domingo, 18 de fevereiro de 2018

Get Out- Corra!


                                                                            

Sinopse: A história acompanha um final de semana na vida de Chris (Daniel Kaluuya), um jovem afro-americano que visita a propriedade da família de sua namorada. A princípio, Chris vê o comportamento exageradamente hospitaleiro da família como uma tentativa desajeitada de lidar com a relação inter-racial da filha, mas, no decorrer da trama, uma série de descobertas perturbadoras o levam a uma verdade que ele nunca poderia imaginar.

Aproveitando que  Corra! foi indicado à 4 estatuetas do Oscar, as salas de cinema do Brasil trouxeram um dos mais aclamados filmes de 2017 de volta ao circuito nacional.
Portanto, se você ainda não conferiu a obra de Jordan Peele, esta é sua chance para entender por que ele fez tanto sucesso entre o público e a crítica no ano passado, cravando impressionantes 99% no site Rotten Tomatoes (agregador de críticas de cinema e televisão).
O thriller social de Peele, primeiro cineasta negro a ser indicado ao Oscar de Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Filme, nos apresenta um jovem casal, inter-racial, Chris e Rose, apaixonados, que vão passar o fim de semana na casa dos pais dela para que eles conheçam seu namorado.
Já vimos muitas vezes essa história, em que o namorado vai conhecer a família da namorada, causando constrangimentos e gargalhadas, mas em Corra as situações “engraçadas” passam batido, alcançam o drama, flertam com o suspense, se apaixonam pela crítica social e são alçados ao status de terror!
Chris é muito bem recebido por Dean e Missy, os simpáticos pais de Rose e eleitores de Obama que fazem questão de deixá-lo à vontade. Lá ele conhece também os empregados da casa, aparentemente, felizes.
Chris está sempre em contato com seu amigo Rod, responsável por tiradas sarcásticas durante a narrativa, que avisa para ele não ir à casa de pessoas brancas. E assim começa a saga de Chris.
Corra é um dos filmes inter-raciais mais envolventes já feitos, é uma película de detalhes, que se conste muito bem construídos e costurados além de atuações convincentes.
O elenco bem seguro tem como destaque o novato Daniel Kaluuya, fazendo o assustado Chris. 
Allison Williams, a Marnie da série da HBO Girls, faz Rose, a namorada apaixonada de Chris. Catherine Keener, interpreta a mãe de Rose, personagem cheia de nuances e camadas. Lil Rey Howery é Rod, o amigo descolado de Chris com quem ele mantém contato durante todo o filme e responsável pelas tiradas sarcásticas durante a narrativa, e a ótima Betty Gabriel que  faz a empregada Georgina, com sua presença enigmática e sinistramente apavorante.
O diretor Jordan Peele, em seu primeiro filme, e sua câmera com enquadramentos ágeis e inteligentes, faz toda a diferença nesse clima de estranhamento e suspense altamente voláteis. Ele tem perfeito domínio do que realiza e entrega cenas memoráveis, como o da sessão de hipnose com a colherzinha de prata tilintando na xícara e
a cena envolvendo o protagonista e a empregada doméstica, a proximidade da câmera na mulher te dá arrepios! 
Na trilha sonora, a primeira faixa, intitulada Sikiliza Kwa Wahenga – que, no idioma suaíli, significa “Escute os Seus Ancestrais” -, e contém em sua letra a mensagem “Algo ruim vai acontecer. Corra”. De acordo com o diretor, essas palavras já representariam por si só, um aviso direto a Chris.
O som causa arrepio, a trilha sonora proporciona medo e o som do violino angustia em suas notas. O barulho do vento, a porta que se fecha, o freio de um carro, cada efeito sonoro é também um personagem do longa.
O diretor não renova o cinema, mas conduz com maestria, em seu primeiro filme, uma perspicácia de contar uma boa história distribuindo pistas permitindo que o espectador crie sua própria teoria sobre o segredo e as intenções da família de Rose, tudo num timing perfeito e principalmente evita jump-scares (quando num filme de suspense ou terror a gente pula do sofá quando do nada surge o vilão ou por causa de um corte rápido) e soluções fáceis.
Um filme cuja maior qualidade talvez seja o timing perfeito – não é nem curto demais, para te deixar com cara de ué acabou?, nem muito longo para te dar sono: cravados 1h44 tudo o que precisa acontecer, acontece.
Ahhhhhhhh joga na internet o final alternativo do filme; após exibições-testes, o público rejeitou o desfecho e o diretor conseguiu um orçamento para refilmar, lacrou!
O filme arrecadou US$ 206 milhões em todo o mundo contra seu baixíssimo orçamento de US$ 4,5 milhões.
Não assistiu ????
Então está esperando o quê???
Corra!

Abraços Literários e até a próxima.